Lori S. Kim | Susruthi Rajanala | Jeffrey S. Dover | Jessica G. Labadie
O que a ciência diz sobre o uso da inteligência artificial na documentação médica
O consentimento informado é um dos pilares fundamentais da prática médica, especialmente na dermatologia e na dermatologia estética. Ele garante que o paciente compreenda claramente os benefícios, riscos, alternativas e expectativas reais de um procedimento, fortalecendo a tomada de decisão compartilhada e aumentando a satisfação com o tratamento.
No entanto, elaborar documentos de consentimento detalhados, específicos para cada tecnologia a laser ou dispositivo baseado em energia, é uma tarefa que demanda tempo e atenção — e que contribui significativamente para a sobrecarga administrativa dos profissionais de saúde.
Diante desse cenário, a inteligência artificial, especialmente os modelos de linguagem como o ChatGPT, surge como uma possível aliada na geração automatizada de documentos clínicos. Mas até que ponto esses textos são confiáveis?
Um estudo recente publicado na Lasers in Surgery and Medicine avaliou exatamente isso.
O objetivo do estudo
O estudo teve como objetivo avaliar a qualidade dos termos de consentimento informado gerados pelo ChatGPT para procedimentos dermatológicos com lasers e dispositivos baseados em energia, analisando sua exatidão, completude e utilidade clínica.
A proposta não foi substituir o médico, mas investigar se a IA pode atuar como uma ferramenta de apoio eficiente na rotina clínica.
Como o estudo foi conduzido
Trata-se de um estudo transversal que utilizou o ChatGPT-4 (janeiro de 2025) para gerar termos de consentimento informado para oito tecnologias amplamente utilizadas em dermatologia, incluindo:
- Laser fracionado ablativo
- Laser fracionado não ablativo
- Depilação a laser
- Laser de corante pulsado (PDL)
- Radiofrequência monopolar
- Radiofrequência microagulhada
- Laser Q-switched
- Laser de picossegundos
Foi utilizado um prompt padronizado solicitando a descrição do procedimento, riscos, benefícios e alternativas.
Cinco dermatologistas certificados avaliaram cada documento de forma independente, utilizando uma escala de quatro pontos, considerando:
- Descrição geral do procedimento
- Benefícios esperados
- Riscos (dor, complicações, tempo de recuperação, restrições)
- Alternativas terapêuticas
- Impressão geral do documento
Principais resultados
Os resultados mostraram variação significativa na qualidade dos documentos gerados pelo ChatGPT.
Pontos positivos
- Radiofrequência microagulhada apresentou o melhor desempenho geral, com textos mais completos e bem estruturados.
- Informações sobre dor esperada e restrições pós-procedimento foram os aspectos mais bem descritos.
- O ChatGPT demonstrou capacidade de gerar textos claros em poucos segundos, com bom potencial de ganho de eficiência.
Pontos de atenção
- Alguns documentos continham informações incompletas ou imprecisas, especialmente em tecnologias como a radiofrequência monopolar.
- Houve confusão entre tecnologias semelhantes, gerando descrições incorretas em alguns casos.
- O nível de leitura dos textos foi considerado elevado, acima do recomendado por instituições como o NIH e a American Medical Association para materiais voltados a pacientes.
- A impressão geral dos documentos foi classificada como apenas moderada, indicando lacunas importantes na clareza e profundidade.
O que isso significa na prática clínica?
O estudo conclui que o ChatGPT tem potencial como ferramenta auxiliar na elaboração de consentimentos informados, especialmente para procedimentos mais comuns e bem documentados, como a radiofrequência microagulhada.
No entanto, a revisão obrigatória por um médico especialista permanece indispensável. A inteligência artificial ainda não é capaz de substituir o julgamento clínico, a personalização da informação e a responsabilidade ética envolvida no consentimento informado.
O futuro da IA na documentação médica
A utilização de IA na medicina tende a crescer, especialmente como suporte à eficiência e à organização do trabalho clínico. Contudo, este estudo reforça que:
- A IA deve ser vista como ferramenta de apoio, não como solução autônoma
- A supervisão humana é essencial para garantir segurança, precisão e clareza
- Estudos futuros devem avaliar o impacto desses documentos na compreensão do paciente e na satisfação com o tratamento
Conclusão
O ChatGPT representa uma inovação promissora para otimizar a rotina médica, inclusive na geração de termos de consentimento para procedimentos com laser e dispositivos baseados em energia. Ainda assim, sua aplicação clínica exige criteriosa validação médica, ajustes de linguagem e responsabilidade profissional.
Na prática, a tecnologia pode ajudar — mas a decisão, a ética e o cuidado continuam sendo humanos.
LEIA MAIS EM: https://doi.org/10.1002/lsm.70080




