O impacto dos lasers e dos dispositivos baseados em energia na senescência celular: uma revisão sistemática

Ryan C. Kelm | Morgan B. Murphrey

O envelhecimento da pele é um processo multifatorial, no qual a senescência celular desempenha um papel central. Células senescentes perdem a capacidade de se dividir, alteram sua comunicação com o meio e contribuem para inflamação crônica, degradação da matriz extracelular e envelhecimento cutâneo visível.

Nas últimas décadas, lasers e dispositivos baseados em energia (Energy-Based Devices – EBDs) tornaram-se amplamente utilizados no tratamento das alterações cutâneas relacionadas à idade. Diante da melhora clínica observada com essas tecnologias, surge uma pergunta fundamental: essas terapias realmente impactam a senescência celular em nível biológico?

Este artigo apresenta uma revisão sistemática que analisa as evidências científicas disponíveis sobre os efeitos dos lasers e dos EBDs na senescência celular.

O que é senescência celular e por que ela importa?

A senescência celular é um estado no qual a célula:

  • perde sua capacidade proliferativa
  • altera a produção de proteínas e sinais celulares
  • passa a secretar mediadores inflamatórios (SASP – senescence-associated secretory phenotype)

Esse processo contribui diretamente para:

  • envelhecimento cutâneo
  • perda de elasticidade
  • surgimento de rugas
  • alterações de textura e pigmentação
  • redução da capacidade regenerativa da pele

Portanto, estratégias capazes de modular ou reduzir a senescência celular representam um avanço importante na dermatologia e na medicina regenerativa.

Objetivo da revisão sistemática

Os autores buscaram avaliar, de forma sistemática, se as evidências científicas atuais sustentam um impacto real dos lasers e dos dispositivos baseados em energia sobre a senescência celular.

Além disso, o estudo analisou se essas tecnologias:

  • restauram a sinalização celular
  • promovem rejuvenescimento cutâneo
  • influenciam mecanismos associados à longevidade celular

Metodologia

A revisão foi conduzida de acordo com as diretrizes PRISMA, consideradas padrão ouro para revisões sistemáticas.

Bases de dados pesquisadas:

  • PubMed
  • EBSCO
  • Web of Science

Tecnologias avaliadas:

  • Lasers
  • Radiofrequência
  • Ultrassom
  • Fotobiomodulação
  • Terapia fotodinâmica
  • Luz intensa pulsada (IPL)

Foram incluídos apenas estudos que investigaram os efeitos celulares e moleculares dessas tecnologias sobre a senescência.

Resultados da revisão

Ao todo, 23 artigos com trabalhos originais e relevância dermatológica foram incluídos na análise.

Distribuição dos estudos:

  • Lasers: 6 estudos
  • Tecnologias baseadas em luz: 11 estudos
  • Outros dispositivos baseados em energia: 6 estudos

Apesar da heterogeneidade dos métodos e modelos experimentais, os resultados foram consistentes em um ponto central.

Principais achados:

  • As tecnologias avaliadas demonstraram efeito positivo sobre a senescência celular
  • Houve redução de marcadores associados ao envelhecimento celular
  • Observou-se melhora da comunicação celular e da regeneração tecidual
  • Clinicamente, os tratamentos estiveram associados à melhora das alterações cutâneas relacionadas à idade
  • Alguns estudos também sugeriram redução do risco de neocarcinogênese, indicando possível efeito protetor

Lasers, EBDs e o conceito de hormese

Um dos pontos mais relevantes da revisão é a proposta de um mecanismo convergente: a hormese.

A hormese descreve um fenômeno biológico no qual:

  • estímulos controlados e não lesivos
  • induzem respostas adaptativas positivas
  • fortalecem a resistência celular

Segundo os autores, os lasers e os EBDs podem atuar como estímulos horméticos, promovendo:

  • restauração da sinalização celular
  • melhora da função mitocondrial
  • estímulo à produção de colágeno
  • rejuvenescimento cutâneo funcional

Esse mecanismo pode explicar por que diferentes tecnologias, com energias e modos de ação distintos, apresentam benefícios semelhantes no envelhecimento da pele.

Limitações da literatura atual

Apesar dos achados promissores, os autores destacam que:

  • O número de estudos ainda é limitado
  • Há grande variabilidade nos parâmetros utilizados
  • Muitos trabalhos são pré-clínicos ou experimentais
  • Faltam estudos clínicos robustos com desfechos moleculares padronizados

Portanto, embora os resultados sejam encorajadores, ainda há necessidade de mais pesquisas de alta qualidade.

Conclusão

A literatura científica que avalia o impacto dos lasers e dos dispositivos baseados em energia na senescência celular ainda é escassa, mas crescente.

Esta revisão sistemática sugere que essas tecnologias:

  • podem reduzir a senescência celular
  • restaurar a comunicação entre as células
  • promover rejuvenescimento cutâneo
  • atuar por meio de mecanismos fundamentais de hormese

Esses efeitos apontam para um papel promissor dos lasers e EBDs na promoção da longevidade celular, da antifragilidade da pele e da evolução das terapias regenerativas.

O avanço nesse campo depende da continuidade de estudos que integrem evidências clínicas, celulares e moleculares, consolidando o laser como uma ferramenta terapêutica baseada em ciência.

Leia mais em: https://doi.org/10.1002/lsm.70079

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