
Xu X, Wu J, Qin J, Jin L, Li Z, Ambe PC. Efficacy of FiLaC in different types of anal fistula. A systematic review and meta-analysis. Lasers in Medical Science. 2026;41:209. DOI: 10.1007/s10103-026-05012-1.
Objetivo: O fechamento do trajeto fistuloso com laser (FiLaC — Fistula Tract Laser Closure) é uma técnica minimamente invasiva e poupadora de esfíncter cujas taxas de cura relatadas variam amplamente (20–80%), em parte pela heterogeneidade técnica e, possivelmente, pela complexidade anatômica do trajeto. Até então não havia dados consolidados sobre o desempenho do FiLaC estratificado por tipo de fístula. Esta revisão sistemática com metanálise investigou o efeito da complexidade da fístula, segundo a classificação de Parks, sobre a taxa de cicatrização após FiLaC.
Tática/metodologia empregada: Revisão conduzida segundo o Cochrane Handbook 6.2, com relato conforme PRISMA e estratégia PICOS, registrada no PROSPERO (CRD420250655230). Busca no PubMed, Cochrane, Embase e Web of Science desde a criação das bases até fevereiro de 2025, com os termos “fístula anal”, “laser”, “classificação de Parks”, “fístula complexa”, “ensaio clínico”, “taxa de cicatrização” e “taxa de fechamento”. Foram excluídos estudos não publicados em inglês, com outras técnicas de fechamento, sem classificação da fístula ou apenas em resumo. Dos 548 registros identificados (345 após remoção de duplicatas), 16 estudos foram incluídos — 14 coortes, além de estudos observacionais complementares —, avaliados pela escala de Newcastle–Ottawa (15 estudos não randomizados) e pela escala AHRQ (um estudo transversal). A análise estatística utilizou o RevMan 5.3, com razão de chances (OR) e IC 95% para dados dicotômicos e avaliação de heterogeneidade por qui-quadrado e I². Pela ausência de relato detalhado de complicações e recidiva nos estudos originais, a análise concentrou-se exclusivamente nos dados de cicatrização primária.
Principais achados e benefícios: Na comparação global (9 estudos), fístulas simples apresentaram cicatrização de 60,8% (174/286) contra 54,6% (101/185) das complexas — diferença numericamente favorável, porém sem significância estatística (p=0,71; OR 1,14; I²=55%; evidência de qualidade muito baixa). O achado mais robusto emergiu da subanálise anatômica: trajetos interesfincterianos ou transesfincterianos (11 estudos, 756 pacientes) tiveram chance quase duas vezes maior de cicatrização em relação aos supraesfincterianos ou extraesfincterianos (58,1% vs. 39,5%; OR 1,93; p=0,006; qualidade moderada de evidência). Entre interesfincteriana e transesfincteriana não houve diferença significativa (52,1% vs. 62,4%; p=0,41), e a estratificação em transesfincteriana baixa e alta não alterou a tendência — ambas superaram a interesfincteriana, com melhor desempenho das altas (69,7% vs. 66,7%; p=0,01). A fístula transesfincteriana também superou significativamente o conjunto supra/extraesfincteriano (OR 2,39; p<0,001) e a supraesfincteriana isoladamente (61,6% vs. 36,4%; OR 2,47; p=0,002). Ainda assim, cerca de metade das fístulas supraesfincterianas (40,5%) e extraesfincterianas (41,7%) cicatrizou com uma única aplicação de FiLaC — resultado clinicamente relevante diante do caráter minimamente invasivo do método, que preserva os tecidos adjacentes com dano mínimo ou nulo. Os autores destacam ainda que a falha do FiLaC habitualmente converte a fístula em uma lesão mais simples, passível de fistulotomia, e que o procedimento pode ser repetido com segurança, aumentando as chances de fechamento.
Limitações e perspectivas futuras: A principal limitação é a ausência de dados de alta qualidade: toda a análise baseia-se em estudos observacionais retrospectivos, com viés de publicação sugerido pelo funnel plot e pelo teste de Egger (p=0,032) em uma das comparações, heterogeneidade elevada na comparação simples vs. complexa (I²=55%) e níveis de evidência GRADE majoritariamente muito baixos. A restrição a publicações em inglês pode ter deixado escapar estudos relevantes, e o seguimento curto de vários estudos incluídos limita conclusões sobre durabilidade. Os estudos originais tampouco permitiram analisar complicações, continência ou recidiva por tipo de fístula. Perspectivas futuras apontam para a necessidade de estudos prospectivos com protocolos padronizados de FiLaC (energia liberada, tipo de fibra, preparo do trajeto), relato sistemático por classificação de Parks e desfechos funcionais, além da avaliação formal de sessões repetidas e de estratégias combinadas para os trajetos supra e extraesfincterianos.
Conclusão: O FiLaC é uma opção válida para todos os tipos de fístula anal, com melhor desempenho nos trajetos de curso retilíneo. Entre as fístulas complexas, a transesfincteriana apresenta as melhores taxas de sucesso, enquanto supra e extraesfincterianas alcançam cerca de 50% de cicatrização. Para a prática clínica, a classificação de Parks pré-operatória deve orientar a expectativa terapêutica e o aconselhamento do paciente, reservando-se o FiLaC como primeira linha poupadora de esfíncter mesmo nos casos complexos, dado que a falha não compromete — e frequentemente facilita — as abordagens subsequentes.



